Vai dizer pra menina que cresceu como a melhor amiga que não há nada de errado com ela. Depois de todos os anos tentando chamar alguma atenção com seus cabelos negros ela os tingiu. Agora são loiros platinados como o daquela amiga que os meninos corriam atrás há muito tempo. Aquela amiga não era tão bonita como ela: morena esbelta, de corpo moldado e sorriso gentil ao contrário da de 1,50 m, magra como uma tábua de passar roupa. Só que a linda menina esguia não tinha o diferencial: madeixas douradas. Ela não entendia porque isso tudo acontecia. Até que começou a reparar que em todas as novelas, filmes e seriados as mocinhas eram loiras e magras. Até as negras estavam se rendendo ao tom amarelado. Na televisão só apareciam as morenas e negras brancas, aquelas que podem facilmente ser transformadas em européias. Do nariz fino ao cabelo alisável. Não apareciam em desfiles meninas como ela, muito menos em catálogos de lojas. Eram todas sempre iguais e mesmo que a simetria de seu rosto fosse perfeito e parecesse ter sido esculpida pelos melhores escultores renascentistas, aquela garotinha, sua amiga, sempre conseguia o que queria, mas ela não. A menina arranjou namorado, era adorada por todos e até o menino dos sonhos da linda morena ela conquistou.
A menina morena foi crescendo e com ela, junto com todo seu problema de auto-estima, o ódio de do antigo continente e de suas pessoas foi aumentando. Já tinha ouvido falar de um tal Malcolm X e um Martin Luther King dos Estados Unidos da América e Nelson Mandela na África do Sul, mas nunca tinha se interado no assunto. Resolveu aprender sobre eles. Sua adolescência foi toda de estudos sobre isso.
Descobriu que aquilo que sofria quando menor era discriminação e preconceito. Se revoltou ainda mais. Foi para passeatas, entrou num grupo chamado Panteras Negras, virou tiete do líder Zumbi.
Começou a agir mais com sua agressividade. Fazia guerras com os Skinheads em São Paulo e com os membros da KKK no terra do Tio Sam. Matou, perdeu amigos. Quase morreu.
Porém, o problema maior foi quando começou a ver que seus antigos amigos cresceram e mesmo os mais ortodoxos e extremistas começaram a namorar meninas de descendência européia se esquecendo de suas raízes africanas. Chorou e gritou bastante. Xingou aos montes. Ficou em depressão até que desistiu. Foi ao cabeleireiro mais próximo e pintou todo seu cabelo da cor do da Xuxa.
Ela poderia ser a Beyoncé ou qualquer outra artista da música negra atual, mas era pior que isso. Era só uma menina. Não era famosa por nada, não tinha talentos musicais nem teatrais. Era só uma menina que queria ser feliz. Era parecida comigo e com a maioria das meninas brasileiras. Era multiétnica e queria não ter conhecido o preconceito ..
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2 comentários:
'Era parecida comigo' Achei que você não fosse falar isso, mas te vi em algumas partes.
Espero que não se renda.
Como anda o ouvido?
Beijos
Cara, adorei a crônica! Eu também já me deparei com o preconceito. Certa vez eu estava no elevador do shopping e eu estava bem vestida, mas entrou uma senhora e me mandou apertar o andar dela, não com um tom de quem está simplesmente pedindo com educação a um estranho e sim de alguém que se acha superior e que pensava que eu trabalhava lá. Aff! Espumei de raiva,mas apertei o maldito botão.
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